Saturday, July 16, 2005

Como ficam os órfãos?

ARTIGO
Como ficam os órfãos?
Por: Val-André Mutran Pereira

É indiscutível que a reforma política entre na esteira de discussões a cerca da crise política que alcança, a cada dia, uma escalada de escândalos sem precendentes desde o golpe militar de 64.

Na pré-ditadura, que mergulhou o país em três décadas de brumas escuras. As questões políticas nacionais que desestabilizaram o governo foram essencialmente econômicas, com pano de fundo ideológico: a guerra fria.

O Brasil vinha então se preparando para dar um salto em sua base produtiva, essencialmente agrícola, para um alucinante modelo de industrialização sob a batuta de JK com os seus 50 anos em 5.

Quase quarenta anos depois, ouço aqui em Brasília, vozes que relembram com viva memória todo o processo.

– É preocupante.

De governo que envelheceu incapacitado de fazer uma reforma ministerial para fortalecer a coalizão que o sustenta no Parlamento e lhe dá governabilidade. Lula deixou-se embriagar pelo poder.

Tive acesso a alguns itens da pauta que Severino Cavalcanti, presidente da Câmara dos Deputados, quer brandar à Nação traída, em convocação de Rede de Rádio e Televisão.

E os termos, caros leitores, são duríssimos. O cabra macho, católico fervoroso, antes de tudo cristão, de trouxa, como diz o adágio popular: “Só tem o saco!”. Vai falar.

Do alto do 3º cargo nacional na hierarquia do poder, Severino está sendo assediado pela base governista que tenta demovê-lo da idéia de ir à TV em horário nobre. Há temor de Severino vir a público e explicar ao povo brasileiro, afinal, o que se passa.

É uma bomba relógio de efeito imediato, com prováveis estragos irremediáveis ao Planalto.

Severino deve falar aos órfãos da Nação, aos 50 e tantos milhões de eleitores, basicamente duas coisas:

1- É humanamente impossível o Congresso Nacional trabalhar com a avalanche de Medidas Provisórias editadas por Lula, num ritmo alucinante, e o que é pior, sem o pressuposto de urgência e relevância como prevê a Constituição de 1988;
2- Como nordestino, aliado de Lula – seu partido o PP, está no centro das denúncias de recebimento do tal “mensalão’ – Severino nordestino cobrará duramente as promessas de melhorias no social, fatura que Lula pendurou para o próximo mandato?

Severino falará aos brasileiros, se não mudar de idéia, pela primeira vez. É fato raro um presidente da Câmara dos Deputados usar desta prerrogativa. Só o fizeram os presidentes em graves momentos da vida nacional. E acrescento: “É o momento não é grave?”

Nordestino como Lula, se Severino falar, a expectativa aqui em Brasília é medonha. Ouviremos um homem que só utilizou até agora, à frente da presidência da Câmara dos Deputados, 20% da verba do semestre. A meta é uma economia de R$ 200 milhões até o fim do ano.

Para quem não sabe o orçamento da Câmara dos Deputados previsto para 2005 é de R$ 2.484.070.936, maior que o orçamento somado dos ministérios da Cultura, do Meio Ambiente...

Se alcançar a meta, Severino dará uma lição à Lula, sem aumentar o salário dos deputados, Severino, até agora, não inchou a máquina, diferente do que prometeu em sua campanha em busca da presidência da Câmara Baixa.

Mas, o cabra macho pode mudar de idéia. Lula chega na segunda-feira de Paris. Severino tem audiência com o irmão nordestino. Os dois presidentes tentam acertar o compasso. Severino ainda está com o seu PP órfão de um ministério e o povo brasileiro órfão de um sonho de um país melhor. Severino pode calar-se. E dane-se o resto.